Poemas que marcaram a minha vida...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Devia morrer-se de outra maneira.



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

4 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Fizeste uma bela escolha com a publicação deste poema.
É excelente e de um grande autor..
Beijo.

Alexandra disse...

Sempre gentil - obrigada!
Adoro Gomes Ferreira e é sublime recordá-lo...

Beijo!

Joana Carvalho disse...

Adorei...e achei absolutamente fantástico! Boa escolha, sem dúvida. Beijinho

Alexandra disse...

Obrigada, linda!

Beijinho grande.